Sobre o pálido ponto azul.

Sobre o pálido ponto azul.
"Nós podemos explicar o azul-pálido desse pequeno mundo que conhecemos muito bem. Se um cientista alienígena, recém-chegado às imediações de nosso Sistema Solar, poderia fidedignamente inferir oceanos, nuvens e uma atmosfera espessa, já não é tão certo. Netuno, por exemplo, é azul, mas por razões inteiramente diferentes. Desse ponto distante de observação, a Terra talvez não apresentasse nenhum interesse especial. Para nós, no entanto, ela é diferente. Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, "superastros", "líderes supremos", todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol. A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes. Nossas atitudes, nossa pretensa importância de que temos uma posição privilegiada no Universo, tudo isso é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos. (...)" Carl Sagan

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Carta aberta a uma doce desconhecida.

Carta aberta a uma doce desconhecida.

Prezada, suas palavras são encantadoras e ternas, mas tenho pra lhe dizer que meu "sucesso" se deve ao "impacto" causado pelo fato de um "ser humaninho" sair de uma carreira de mais de uma década na advocacia e deixar de lado a paixão pelo magistério para virar acompanhante de luxo na sua capital preferida.
Não seria justo eu lhe dizer: "faça o curso de Direito (ou um tão "pomposo" quanto aos olhos da sociedade), passe no seu primeiro exame da OAB, faça uma pós-graduação boa, namore homens legais, namore babacas, enfrente relacionamento abusivo, case, separe, mude de cidade e Estado, advogue com esmero, seja vítima de ciúme infundado e quase psicótico de esposa de colegas, lecione, seja sempre a primeira a corrigir provas, a que está sempre disposta a incentivar os alunos, a que posta a matéria no portal acadêmico, "consequentemente", seja demitida sem justa causa ou qualquer outra explicação, diante de tais fatos saia do interior do Estado onde estava há 3 anos para o DF e seja encontrada num site de "segunda" (na colocação dos sites daqui, mas foi o único que aceitou fotos não profissionais) que lhe entrevistou e, então, passe a ser ouvida por canais mais interessantes e sérios no meio da internet. Ah, faça um blog e escreva em português correto! Ah, seja culta, boa leitora e escritora, além de bonita, claro."
Vejamos: eu tenho um blog chamado "Apenas ideias" desde 2007 (www.claudiademarchi.blogspot.com.br). Escrevo crônicas desde 2003. Tenho pontos de vista polêmicos, mas nunca fui notada, nunca me intitularam escritora ou nada afim. Não até me verem seminua na internet.
Mulher bonita, que não aceita ser sustentada por homem e descende de família humilde sofre o dobro: precisa de emprego, "cruza" com demônios chamados "mulher do chefe", se dedica-se demais tem problema, se dedica-se "de menos" também tem. E não tem tempo pra fazer outra coisa, afinal você ajuda a família, não tem ninguém pra lhe ajudar. Trabalha de dia pra comer de noite e ainda é obrigada a ouvir filhinho de papai criticar sua "revolta", por exemplo!
Eu saí da faculdade de Direito com um escritório e trabalhando. O Judiciário me frustrou. Dos homens eu desisti: a maioria me pareceu acomodada, egoísta e machista (há exceções). Filhos? Deusmelivre! Não posso nem com choro de criança! Sexo? Sempre amei! Sobretudo depois dos 29/30 anos, quando a gente está segura de si pra f***** de luz acessa e sem vergonha alguma!
Gosto sim e tendo o dinheiro como recompensa não me importa a aparência do cidadão desde que seja educado, escreva e fale corretamente. Eu poderia continuar advogando. Eu poderia esperar a virada de semestre e voltar a lecionar noutro local. Mas, num ato de rebeldia eu uni o útil ao agradável!
E, desde então, somente um pensamento me vem à mente: "Por que eu não comecei a fazer isso há anos?". Talvez, porque haja uma razão por trás de tudo. Como mulher madura que faz o que gosta eu me imponho e pretendo influenciar a muitas a se imporem e se libertarem do preconceito. Porque se quem sofre a discriminação é conivente com ela, nada nunca irá mudar. E eu quero ser agente de alguma mudança. Tentarei sê-lo, se eu conseguir você saberá!
Cláudia de Marchi
Brasília/DF, 03 de outubro de 2016.


Um comentário:

  1. Aguardo, ansiosamente, por um livro teu.
    Apaixonada pela tua escrita, opinião e postura.
    Sucesso!!!
    👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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