Sobre o pálido ponto azul.

Sobre o pálido ponto azul.
"Nós podemos explicar o azul-pálido desse pequeno mundo que conhecemos muito bem. Se um cientista alienígena, recém-chegado às imediações de nosso Sistema Solar, poderia fidedignamente inferir oceanos, nuvens e uma atmosfera espessa, já não é tão certo. Netuno, por exemplo, é azul, mas por razões inteiramente diferentes. Desse ponto distante de observação, a Terra talvez não apresentasse nenhum interesse especial. Para nós, no entanto, ela é diferente. Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, "superastros", "líderes supremos", todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol. A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes. Nossas atitudes, nossa pretensa importância de que temos uma posição privilegiada no Universo, tudo isso é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos. (...)" Carl Sagan

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Da misoginia ao massacre em Campinas.

Da misoginia ao massacre em Campinas.

Era uma vez Marcelo. Marcelo curtia marcas, usava relógio caro e dirigia um carro de fabricação estrangeira. Era um homem de trinta e tantos anos bastante dedicado a sua carreira jurídica. Certa noite ele e Juliana, sua namorada, pós-graduanda em Filosofia, que carregava consigo uma bolsa Victor Hugo, uma pulseira Vivara e algumas semi-joias caríssimas foram assaltados. 
Os ladrões, de arma em punho, em frente ao portão da casa de Marcelo exigiram-lhes tudo: carteira com dinheiro e cartões, bolsa, sapatos, relógios, joias e semi joias e, por fim, o amado carro de Marcelo. Amarraram-lhes, colocaram uma fita em suas bocas e ali lhes deixaram semi nus. (...) Conseguiram ajuda e passam bem. 
E agora, alguém aí tá "se dizendo": "mas, também, pra que ostentar numa sociedade com tanta criminalidade?", "por que sair de casa com bolsa de quase 3 mil, joias e semi joias finas?". Não, certo? Os produtos eram deles e eles tinham o direito de usar, não é?! 
Então, porque vocês, bando de leigos sem empatia e conhecimento de causa, resolvem ser "vitimologistas" de quinta categoria quando a vítima do crime é mulher (inclusive quando se trata de estupro) e acabam culpando-a pelo que lhe ocorreu? Detalhe, é sempre quando a vítima é mulher! Em caso de agressão, feminicídio ou estupro de qualquer espécie vocês correm questionar a conduta da vítima do sexo feminino! Vocês correm para atribuir a culpa do agir alheio cruel e despropositado à vítima de quaisquer delitos, desde que ela seja mulher ou se identifique como sendo deste sexo. 
Sinto lhes dizer, mas vocês têm uma mentalidade doentia, tacanha e misógina. Ainda que "vocês" sejam mulheres. Além de nojo, vocês me dão pena. Se você não leu os autos do inquérito ou processos, se não conhece Direito e Psicologia Jurídica, se não tem expertise alguma no assunto e nem está sendo pago para defender o bandido, seja apenas humano e repita para si no mínimo 1000 vezes: "a culpa nunca é da vítima! A culpa nunca é da vítima!". Deu pra entender ou preciso desenhar?! 
De toda forma, eu vou lhes desenhar sobre como se origina a cultura misógina de culpar sempre a mulher e malbaratar seu sofrimento. Da educação dada pelos pais! É a mãe que fala mal do pai na frente do filho atribuindo a culpa pela desatenção dele "àquela vagabunda da nova namorada do seu pai". Criando no inconsciente do homem asco à mulheres e, por outro lado, perpetuando a rivalidade entre elas, ignorando que o macho trai porque lhe desrespeita e namora quem ele deseja, porque deseja! (Quiçá usando dos mesmos artifícios que usou para lhe conquistar). 
Quem cria machista é a mãe que ensina a filha a lavar suas calcinhas, mas lava as do filho homem. Quem cria machistas são as mulheres que jogam confete no marido que "ajuda" nas tarefas de casa, quando ele não faz nada além da obrigação: as obrigações são da casa, não são suas! 
Quem cria machista e misógino é o pai que explica para o filho que ele tem que ficar com muitas mulheres, mas deve se casar com a mais "intocada", porque existe "muié pra casa e tira cria e muié pra come". 
Quem cria machista é a mãe de sexualidade recalcada que fala mal da colega de vida livre na frente dos rebentos. Quem cria machista são os pais que, ao verem uma notícia sobre um estupro, colocam a culpa na vítima, o que não fazem quando noticiam que um homem usando um rolex foi assaltado. 
Quem cria machista é a mãe que pede para a filha ajudar a lavar a louça enquanto o filho vê futebol na sala com o papai que, por sua vez, sempre manda o menino engolir o choro, "porque homem não chora" e censura o short da filha no verão, enquanto o filho anda sem camisa. 
Ou seja, quem ensina o machismo são os pais e eles fazem isso tanto com as filhas mulheres quanto com os filhos homens. Eles, tendem a se tornar problemáticos que não suportam ouvir um não de uma "puta", elas, farão parte daquele grupo que acha que mulher tem que rivalizar e puxar o tapete da outra para ser a ela superior. No final, todos perdem e a inteligência sofre nocaute!
Vejamos uns apontamentos feitos por mim, que tive um relacionamento amoroso com um misógino. Início do romance: "Cláudia, você é especial, diferente das outras, não sai pra balada caçar macho, não transa com qualquer um. A maioria dessas mulheres de hoje são umas vadias interesseiras você nem deve chamar aquelas suas conhecidas piranhas de 'amigas'". 
Meses após, namoro após, quiçá casamento após: "Fulano essa relação não é o que eu quero, eu mereço mais, ainda que eu goste de ti." Gritos, uivos, (quiçá objetos jogados ao chão) e segundos depois: "... Vagabunda, vadia, piranha, você não vale nada. Merece morrer! Eu fiz de tudo por você... (mimimi vitimismo)"
Sacou mulherada? O cara que hoje destila ódio às outras, assim que tiver o seu ego de cristal ferido por um "foi bom, mas não quero mais", vai colocar toda a sua ira estúpida, machista e doentia contra você! 
Eu fui vítima disso como acompanhante que dispensa clientes de abordagem tosca no site misógino e criminoso chamado GP Guia! Já pensou se o fora que dei naqueles mentirosos fosse tèt a tèt? Quiçá eu estivesse espancada numa cama de hospital! 
O misógino não suporta receber "não" de mulher, ele não respeita a que impõe preço ao seu tempo, porque acha que ele deve colocar, ele também não respeita a que não coloca preço e acha que ambas devem aceitar a sua companhia imbecil e nada cavalheiresca, porque, no fundo, não vêem mulheres como seres humanos, mas como coisas de um nível inferior ao seu. 
Ciente disso não me apavora que existam defensores do cidadão que cometeu um massacre em Campinas/SP e matou o próprio filho! São os papagaios de Bolsonaro, ignorantes, misóginos, fascistas-cristãos defensores da "família tradicional brasileira", obviamente! 
Esse cara não matou estas pessoas sozinho: teve uma "carga" de dementes virtuais, analfabetos funcionais e inaptos no amor ao próximo lhe achando um "grande homem", afinal o "feminismo destrói famílias", certo?! Não, errado! O ódio às mulheres empoderadas (vulgo vadias, vagabundas e termos correlatos), destrói famílias, o machismo destrói a empatia e o amor ao próximo. 
Feministas não entram em festa fazendo chacina, feministas não querem ser tratadas como lixo por homens escrotos e maldosos. Só isso parça, o resto é fruto da sua mentalidade ignorante que ainda não percebeu que pra misógino rejeitado as palavras de ordem são "ódio" e "repúdio às vadias". Desde que o mundo é mundo, infelizmente! 
O cidadão cometeu um massacre com argumentos de ultra-direita dignos do lixo intelectual da "caixa" de comentários do G1 e afins. E é isso que me preocupa, aquele infame não estava sozinho e toda a sociedade estúpida e mal criada pelos pais tem seu dedo de culpa. 


Brasília/DF, 03 de janeiro de 2017.

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