Sobre o pálido ponto azul.

Sobre o pálido ponto azul.
"Nós podemos explicar o azul-pálido desse pequeno mundo que conhecemos muito bem. Se um cientista alienígena, recém-chegado às imediações de nosso Sistema Solar, poderia fidedignamente inferir oceanos, nuvens e uma atmosfera espessa, já não é tão certo. Netuno, por exemplo, é azul, mas por razões inteiramente diferentes. Desse ponto distante de observação, a Terra talvez não apresentasse nenhum interesse especial. Para nós, no entanto, ela é diferente. Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, "superastros", "líderes supremos", todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol. A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes. Nossas atitudes, nossa pretensa importância de que temos uma posição privilegiada no Universo, tudo isso é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos. (...)" Carl Sagan

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Factorings e Igrejas. (Crônica de 2006 para o feriadão!).

Factorings e Igrejas

Um amigo me disse que esta surpreso com a quantidade de factorings que inauguraram recentemente na cidade, além de financeiras e "afins". Eu, por outro lado, há tempos venho me surpreendendo com a quantidade de "igrejas", templos e, até mesmo, religiões que surgiram, além, obviamente do maior número de fiéis que as procuram.
Sem dúvida o dinheiro é uma necessidade, principalmente nos dias de hoje em que o supérfluo vem se tornando necessário, e as dívidas, consequentemente, se avultam de forma que recorrer a empréstimos de dinheiro é um "elixir" para um mal de causas confusas, porém não ilógicas.
Na realidade, me preocupo muito menos com o aumento do número de factorings e financeiras do que com o aumento do número de igrejas, religiões e crentes. O que mais me faz lastimar no mundo, na verdade, não é o excesso de fé em alguém ou algo (em alguma religião, por exemplo), mas a falta de fé do homem em si mesmo, a falta de racionalidade humana e, sua consequente capacidade vã de acreditar sem questionar.
Fico estarrecida em ver como o ser humano pode crer sem refletir "sobre" o que lhe é dito, sobre antinomias históricas e sobre aquelas encontradas nas pregações dos "superiores religiosos". O que mais me aterroriza não é ver o governo roubando, a caterva no Congresso (eleita pelo povo), mas é constatar que a sociedade “acredita” demais no intangível.
Acredita nas falácias dos governantes, dos padres, dos pastores, dos "pais-de-santo", daqueles, pois que apregoam saber e conhecer mais, que pregam, que dizem o "agradável" para conquistar sua confiança, sua subordinação, para manter a tendência social-cultural de cultivo a letal "ausência de confiança do ser humano em si mesmo". Afinal, uma pessoa que não precisa dizer “graças a Deus” frente a cada conquista sua, se liberta!
Lastimo as poucas vezes em que fui à missa e vi as pessoas com um olhar vazio de quem acredita mais no padre ou no papa do que em si mesmas. Radical? Pode ser que eu seja um pouco. Racional? Sim, e muito. Fé? Muita, em mim e em algo “superior” que habita dentro de mim (e de todos os indivíduos) e na natureza.
Não preciso de mestres, não preciso confessar pecados, até porque não creio neles. Chamo-lhes de falhas, de erros "demasiado humanos" (usando parte do título de uma obra de Nietzsche), que acabam por me ensinar algo válido. Vivo como uma espécie de “teísta herege”: não rezo "Creio em Deus Pai", porque nele eu até posso crer, mas duvido muito da "Santa Igreja Católica" (Santa? Que santa?).
Na realidade, duvido de qualquer religião ou pessoa que não mostre ao ser humano quão forte ele é e que não lhe diga: "Antes de creres em algo, creias em ti, antes de amar a alguém ou a algum Deus, ame a ti mesmo, antes de desejares respeito, respeites, antes de conheceres algo, conheças a ti mesmo e não deixes que ninguém te mande ou doutrine. Ame a ti e a vida, que estarás sendo grato a Deus, sem cantorias, sem exaltação, pois ser feliz é a melhor oração que podes dedicar a um ser superior e, respeitar a quem te cercas, é a maior prova de amor à divindade que habita em cada ser humano”.
Se todo individuo acreditasse em si mesmo, estudasse História, questionasse, fosse livre mentalmente e, via de consequência, liberto de dogmas e de ensinamentos inúteis que serviram para domesticar o seu cérebro, certamente representaria "perigo”: pensar é perigoso, questionar é uma afronta ao Governo, às igrejas, aos padres, aos pastores e demais "mestres". Ou melhor, àqueles assim denominados, porque o cidadão não vê que a sua mente deveria ser seu único guia e a busca pelo conhecimento, a leitura e o estudo seu melhor e mais rico caminho. (E que venha a fogueira!).

Cláudia de Marchi

Passo Fundo/RS, 18 de abril de 2006.

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