Sobre o pálido ponto azul.

Sobre o pálido ponto azul.
"Nós podemos explicar o azul-pálido desse pequeno mundo que conhecemos muito bem. Se um cientista alienígena, recém-chegado às imediações de nosso Sistema Solar, poderia fidedignamente inferir oceanos, nuvens e uma atmosfera espessa, já não é tão certo. Netuno, por exemplo, é azul, mas por razões inteiramente diferentes. Desse ponto distante de observação, a Terra talvez não apresentasse nenhum interesse especial. Para nós, no entanto, ela é diferente. Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, "superastros", "líderes supremos", todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol. A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes. Nossas atitudes, nossa pretensa importância de que temos uma posição privilegiada no Universo, tudo isso é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos. (...)" Carl Sagan

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Crônica sinceríssima sobre a minha experiência com algumas pessoas de esquerda e de direita no Brasil atual.


Crônica sinceríssima sobre a minha experiência com algumas pessoas de esquerda e de direita no Brasil atual.

Há três anos eu lecionei Direito da Criança e do Adolescente e Direitos Humanos para duas turmas do sétimo semestre da UNIC, lá na capital nacional do agronegócio. As aulas de Direitos Humanos da turma mais numerosa ocorriam às sextas-feiras à noite. Eu fazia o possível para fazer com que houvesse interação em sala, haja vista a importância do conhecimento do tema para um operador do Direito.
Ao longo do semestre era comum eu ouvir comentários dotados de profunda carga emocional, vez que ligados às histórias de vida dos alunos que opinavam e discordavam de alguns dos princípios estudados, todavia o meu dever era lhes incentivar a pensar e compreender a matéria de forma técnica. Na última aula do semestre, com o plano de ensino concluído, eu dei-me ao direito de ser “sincerona” e mais humana do que “científica” com aquela turma, inclusive com aqueles alunos dos quais, como professora e constitucionalista, eu me opus ao longo do período e durante os diálogos em sala.
Enfim, os alunos já haviam compreendido o conteúdo, bem como quem são os sujeitos da matéria: o cidadão frente ao Estado e os deveres deste perante a sociedade e o indivíduo (relações entre pessoas são objetos de estudo de outros ramos, como por exemplo, o Direito Penal, o Direito Civil, etc.). Naquele dia eu disse a eles que, para quem perde o filho, o pai ou a mãe nem a mais rigorosa das penas irá contentar: a perpétua não, porque a pessoa estará viva e sem trabalhar, a de morte também não (contra a qual me oponho), porque a morte não faz sofrer, consequentemente, nenhuma pena de 20, 10 ou 15 anos deixará a sensação de “justiça” para quem perdeu, a título exemplificativo, um ente querido.
Então eu lhes disse que se uma filha minha tivesse sido estuprada e morta, eu só iria ficar satisfeita se o mesmo ocorresse com o criminoso. Mas isso seria perfídia minha. Querer o “olho por olho” para quem matou quem eu amo seria perversidade minha, mas eu sou humana e, portanto, ser imperfeita, vingativa e até perversa é algo que posso ser, posto que não sou, nem nunca fui santa, a Igreja ou o Estado. O que eu não admito, como operadora do Direito e pessoa humana, disse-lhes, é que cedamos ao Estado a possibilidade de matar em nosso nome, porque o Estado erra. E erra comumente. Eu prefiro culpados livres a inocentes mortos.
Segundo o que lhes disse ao fim da aula naquele encerramento de semestre letivo, eu cometeria um crime conscientemente para me vingar e não me importaria em tornar-me ré num processo criminal. Algo louco, certo?! Foi, foi algo atípico de ser dito, mas não foi o fechamento da matéria, pois ela já havia findado. Foi um desabafo da professora que lutou contra o senso comum dos alunos durante meses e, assim, eu derrubei, com franqueza e uma dose de humor negro, um pouco da barreira acadêmica da arrogância onde o professor é o rei, o superior, o intocável.
Agora, farei o mesmo aqui (um desabafo que nunca fiz) sobre um assunto muito diferente, logo não o faço como professora universitária e advogada, mas como escritora, acompanhante de luxo e mulher. Uma mulher em paz consigo mesma que escolheu viver na contra mão da hipocrisia! Estamos numa fase de polarização política escrachada no Brasil o que não costuma ser bom para nossas relações interpessoais e felicidade. De pessoas afetas aos ideais esquerdistas e Estado de Bem-Estar Social, como eu, cobram manifestações, estilo “como ficar aí de boa no feriado, sabendo que tem um homem preso sem provas lá em Curitiba”?; “como consegue ser feliz com todo o neofascismo no Brasil”?; “como que não vai tomar partido, se filiar, erguer bandeira do PT, tirar foto com o Lindbergh Farias, ir ‘tietar’ político de esquerda no Congresso?”. Ficando. Conseguindo. Não tomando. Não indo. Porque eu sou pérfida e egoísta? Talvez! A questão é que eu sou uma pessoa cansada de gente hipócrita e arrogante, sejam elas esquerdistas, conservadoras, neoliberais, socialdemocratas, reacionárias, de extrema direita e tudo o mais!
Há meses conheci pessoas da esquerda, gente que circulava do PT ao PSOL. Teoricamente a galera da esquerda defende as minorias, é libertária, pró-feminismo e etc., certo? Teoricamente eles são altruístas, instruídos e "anti-preconceitos"? Sim, teoricamente. Vejamos: essa polaridade fez surgir muita "pseudocelebridade virtual" que ganhou fama por “cacetear” político ao qual se opõe no Twitter e demais redes sociais, assim como por fazer postagens. Vira print, viraliza e as pessoas ganham notoriedade, aliás, esse negócio virou quase uma profissão. Esse povo poderia ser denominado de “opositor virtual”, “contrariador de político que despreza”, algo assemelhado.
Mas, voltemos às “pseudocelebridades comentaristas de política” da internet (que oportunisticamente se filiam a partido e logo se tornarão candidatas a algum cargo político): eu cansei de escrever comentários aos posts delas de 2016 para cá! Elas debatem com seus seguidores no Twitter e demais redes, mas a galera que diz para quem não detém os meios de produção darem-se as mãos e etc., faz de conta que eu sou um fantasma. Não respondem e sequer curtem os meus comentários (que nunca foram bobos ou de conotação diversa do que sucedia ao meu e obtinha interação). Se me conhecem? Possivelmente sim, porque essa galera lê notícias e eu estive no G1 e no UOL entre as mais lidas, além do popular Catraca Livre (três vezes em menos de dois anos). De mais a mais a minha profissão atual consta nos meus perfis e, nas mensagens privadas, eu me apresentava! Ano passado, por exemplo, escrevi em solidariedade uma mensagem privada e outra pública para uma conterrânea feminista que foi estuprada. Resposta? Nenhuma. Afinal, eu sou puta e “puta não pode ser feminista, isso é engodo”. “Prostitutas são exploradas” e eu “não sou gente”, porque exerço o meu empoderamento recebendo para fazer sexo com homens bem selecionados (há muita ironia neste parágrafo).
Sei como muitas pessoas libertárias e contrárias a "toda espécie de preconceitos" pensam, tive clientes de esquerda que diziam que a "trupe" dele pensava assim. (Uma trupe incapaz de se informar, né?! Ou muito medíocre). E sobre o povo com quem interagi pessoalmente? O povo “esquerdista”, “progressista", “pró-minorias” e "anti-preconceitos" do mundo real? Alguma mulher “libertária” que adora falar de sororidade me adicionou no Facebook ou interagiu comigo depois? Não, nenhuma. Portanto sim, eu posso ser feliz sem amiguinhos, sem turminha esquerdista e sem filiação política, sim, eu não "sigo" mais nenhuma “pseudocelebridade comentarista de política by redes sociais” esquerdista que nunca interagiu comigo, porque eu já senti mais humanidade e afabilidade de madame sem consciência de classe em salão de beleza do que da galera “humanitária" e  "pró-minorias”.
Posição política diz muito, sim, mas tem muita gente que não se posiciona, porque não tem profundo conhecimento acerca do assunto, mas são pessoas empáticas. Claro, não estou falando aqui da pessoa que é boa comigo e trata mal o porteiro, o garçom e a faxineira, estou falando de pessoas que não se posicionam da mesma forma que eu perante a política, mas que são educadas e afáveis com todos, sem distinção. Sem se importar como o outro exercita a sua sexualidade, qual sua origem, classe social, cor, "opção" sexual e etc.. Pessoas que não fazem discurso se erigindo contra preconceitos, mas que, de fato, não os demonstram na sua vida virtual e no "tête-a-tête" de "cada dia"! Existe neoliberal mais humano do que socialista hipócrita, assim como existe ateu mais bondoso do que cristão e mulher “bem casada” e “pra casar” moralmente mais devassa do que eu. 
E eu? Eu sou eu. Não idolatro nenhum humano, seja político, seja autor, seja padre, seja pastor. Admiro alguns e só confio plenamente em mim e me sinto realmente feliz sozinha. Mas, sozinha, sozinha mesmo! No hotel, comendo fora, bebendo uma taça de vinho, afagando meus gatos, lendo, assistindo uma série: eu amo a minha própria companhia. Comigo mesma eu nunca tive vontade de me embriagar, porque eu não me estresso! (Risos...) Eu não faço discurso que contradizem meus atos, não me fazendo faço de santa ou enrolo um conhecido pelo qual não me interesso apenas para massagear meu ego idiota, não faço drama e nem discurso vitimista! Descobri isso nos últimos tempos, mais especificamente aqui em Brasília e de 2017 pra cá. Os mesmos tempos em que eu me toquei que conheço admiradora (ou ex-admiradora) do Bolsonaro mais liberta e humana do que algumas mulheres esquerdistas. Tive alunas que se tornaram amigas e são pessoas ótimas, mas cuja posição político-partidária ou religião não é a minha, pelo contrário. Mas, quando nos encontramos, nos afinamos e nos divertimos, porque nos fazemos mutuamente bem. Respeitamo-nos e aceitamos as diferenças de forma que elas nem pesem. Quero lhes dizer, por fim que posição acerca de Economia e Política é um dos muitos detalhes em uma pessoa e, para mim, deixou de ser crucial. Eu sou feliz porque escolhi ser feliz “na minha” e me encontrar só com quem me respeita e admira, assim como é por mim respeitado e admirado apesar de qualquer diferença! “Publique-se. Registre-se. Intimem-se”. (“Cumprir” eu estou "cumprindo" desde o ano passado!)
OBSERVAÇÃO: Se alguém aqui está achando que o preconceito narrado no texto é mimimi meu, basta desfazer a amizade, deixar de seguir e usar a mesma frase que você usa quando a vítima do preconceito é negro, gay ou outra minoria pela qual você nutre empatia: “não julgue e nem dê palpite em preconceito que você não sofre!”. Obrigada.
Brasília/DF, 04 de maio de 2018.
Cláudia de Marchi

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